Há muitos anos nasceu um pelicano que mudaria a história.
O que hoje vemos em todos os cantos da cidade são os corvos espalhados em becos e vielas, e nem de longe se comparam ao nobre pelicano ou ao sacrifício que a lenda fez por todos os pássaros que nasceriam depois daquela data triste e ao mesmo tempo divina.
Os pelicanos são lindas aves brancas como a neve, enormes, seus movimentos são perfeitos, não se entregam ao clímax do prazer e nem mesmo vivem em função disso. Seu sangue é doado aos seus filhos como sacrifício e prova de amor onde a luxuria e o prazer nem de longe conseguem tentar esse nobre pássaro.
Nós, os corvos que nada de novo fazemos, apenas vivemos as sombras de nossas penas negras jurando monogamia e praticando a carnificina do adultério, em nada parecemos com o nobre pelicano.
Roubamos, cobiçamos, mentimos e matamos, nossos olhares se perdem em meio a tentação dos pecados. Somos o que há de mais podre navegando pelas inquietas águas, falamos a todo instante do Pelicano, que somos bons como Ele, e no fundo sabemos que não passa de uma forma de manter nossa imagem.
Muitas vezes esquecemos do que Ele fez por nós. Esquecemos que ele resistiu as tentações, ensinou a cultivar a amizade, a valorizar os alimentos e amar ao próximo, por mais negro que o corvo possa parecer ou ainda que seja um urubu carniceiro.
Olhamos nossas penas e sabemos que somos todos iguais e ainda assim insistimos em enxergar penas coloridas de araras em nossa carne.
Voamos de flor em flor como uma beija-flor, mas não buscamos a essência e sim o prazer, a aventura. O sexo domina nossos olhos negros de jabuticaba. O sexo, mas como ao ver as asas abertas do Pelicano podemos ainda imaginar o sexo?
Como podemos ainda crer que nossos prazeres carnais são tão importantes quanto o sangue do já abatido Pelicano?
Como podemos ainda crer que nossos prazeres carnais são tão importantes quanto o sangue do já abatido Pelicano?
Ele nasceu de mãe virgem, morreu virgem e sempre contou histórias aos seus filhinhos virgens, mas todos os lindos pelicanos foram morrendo em nossa alma e apenas restou a sombra do corvo. Restou apenas o desejo carnal e comercial, restou a imagem e a esperança de que um dia o Pelicano irá voltar com os ensinamentos que deixou e finalmente deixaremos de ser negros corvos para nos tornarmos virgens pelicanos.
OK!
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